Vamos começar por recuar mais de 100 anos. A 13 de Janeiro de 1898 o Rei D.Carlos decretava a restauração do concelho de Aljezur, Bordeira e Odeceixe. As duas primeiras pertenciam ao concelho de Lagos e a última ao de Odemira.

Nessa altura, o Rogil, tal como é hoje, não existia. Era apenas um monte como outros que já se encontravam nessa área e que era citado por João Maria Batista na Chorografia Moderna do Reino de Portugal: Abris, Brejo, Porto dos Almocreves, Vidigal, Porto da Silva, Sermenheiros, Corte de Sobro, Barrancão, Brejo Longo, Perdigão, Vale da Vinha, Samocal, Monte Velho, Vale da Murta, Priorado, Azia, Casa Nova, Cabeço das Pedras, Vale de Carros, Serro Grande, Montinho, Seiceira, Castelãs, Arregata, Monte da Vinha, Feiteirinha, Quejeira, Camarate, Cabeço de Águia, Baía dos Tiros, Samoqueira, Esteveira, Brejo da Moita, Pero Vicente, Pedra da Mina, Brunheira e Lagoa do Boi, entre outros.

Mariano Feio dizia que ao redor do lugarejo do Rogil se encontrava uma área importante de povoamento disperso e que, da ribeira de Corte de Sobro até ao mar, em 1889, havia 40 casas, em 1919 cerca de 300 e em 1949, 500 a 600.

O Rogil, dizia, era o centro desta área de dispersão e não compreendia senão dois ou três montes antigos. Em 1911 contava 19 casas e em 1949 mais de 50.

E como viviam as pessoas há mais de 100 anos?

Nascia-se em casa, com a ajuda de uma mulher da família ou uma vizinha, sendo especialista nestas andanças a tia Catarina do Vale Juncal.

As casas eram de taipa, telha vã e chão de terra batida. As telhas vinham do Seromenheiro ou do Monte das Figueiras. Os pedreiros eram curiosos e os mais antigos que se conhecem são o João Lameira e o José Torrinha.

Grande parte dos terrenos eram incultos e havia muitos rebanhos de ovelhas e cabras. Trabalhavam-se pequenas courelas de trigo, milho, batata doce. Não havia adubo. Fazia-se belgas que consistia em enterrar mato, em molhinhos encarreirados, a que se dava fogo, espanhando-se a cinza pela terra. Consta que o primeiro lavrador a usar adubo foi o Manuel Domingues da Bunheira.

Comia-se apenas papas, pão de milho e batata doce. Os mais abastados matavam porco. A gordura do porco, ou azeite que vinha do lagar da Arregata, e que servia também de iluminação em candeias de latão.

As melancias, que havia em abundância, eram vendidas em Lagos, transportadas em carros de besta. Três dias de ida e volta e 1:50 para o carregador. Na volta trazia sal, cal e outros produtos de maior necessidade.

Não havia correio. As notícias sabiam-se na missa ou, se era coisa importante, vinha o meirinho de Aljezur apregoar. Quando se adoecia e as mezinhas caseiras não resolviam, ia-se a pé à vila ou então o médico vinha a casa numa mula e levava 1:50 por consulta.

Não havia escola e o pai do Chico Libâneo era o único que sabia ler.

Os editais para o tropa eram lidos na missa e os mancebos iam à inspeção a Aljezur. Muitos, tomavam banho pela primeira vez e iam a pé para Lagos, onde cumpriam o serviço militar.

Normalmente as pessoas casavam na igreja da vila de Aljezur. Iam a pé, de burro os mais afortunatos. Depois da boda, havia festa na casa do noivo e na casa da noiva. Então o noivo e os padrinhos iam roubar a noiva a casa dos seus pais, que a escondiam debaixo da cama ou dentro de uma caixa. E era uma festa.

Quando se juntavam, se separavam e voltavam a juntar estavam sujeitos a chocalhada, junto da casa, feita pelos mais afoitos, com chocalhos e latas bem batidas.

Por esses tempos jogava-se ao palito na venda do António Inácio e, mais tarde, na do José Rosa. O jogo da malha aparece depois e eram conhecidos os terreiros do Cristino da Ameixeira e do Vale Juncal.

Faziam-se bailes. Nos montes, porque ainda não tinha sido fundado o clube. Comia-se filhós e bebia-se café, aguardente ou vinho. Dançava-se ao som do fole de uma escala. O fole de duas escalas aparece depois e foi o Manuel Regino o primeiro a tocá-lo. E muitos dançavam descalços, tal como andavam. Os sapatos eram poucos e os sapateiros da altura, que eram o Bernardo de Odeceixe e o Chico da Calçada, andavam de casa em casa.

Como a vida era dura e os recursos escassos, muitos iam às mondas para o Alentejo. A trouxa às costas, em grupos de 6 a 9, caminhavam a pé até à Comporta, anoitando onde anoitava. Uma vez chegados, arrajavam capataz e trabalhavam três meses, sol a sol, mal ganhando para pagar as dívidas.

Mas também havia dias de festa: a Quaresma, o 29 de Agosto que era muito festejado, o Dia de Todos os Santos, em que o gado era levado a benzer a Aljezur.

Morria-se em casa, tal como se havia nascido. Quando tal acontecia, depois de velado, o corpo metido num esquife, que servia para todos, era transportado aos ombros até ao cemitério velho de Aljezur. Com grande acompanhamento, como era hábito na charneca.

Muito haveria ainda para dizer sobre as famílias, os hábitos e os costumes da nossa terra.

Biografia:

Jornal Algazur – Armando Mendes – Breve Caracterização da Freguesia do Rogil no princípio do século.